Existe maré alta em alto mar?


Enquanto esperava embarcar no sono, a cama insistia em me devolver ao estado de alerta dos dias. Parecia não me querer ali.


Acordei ainda de madrugada mareada de tantos pensamentos. Fiquei refletindo sobre as diversas mortes simbólicas, ou não, que ainda vou vivenciar nessa vida.


Acredito que estou passando por uma delas agora. Gestar um filho é a morte simbólica de quem um dia já fui e sinto como se estivesse me preparando para nascer junto com ele. Viver esse limbo, entre a morte e o nascimento, de forma consciente, é tão cansativo quanto tentar sair de um redemoinho à braçadas.


Estou sempre às voltas me perguntando quem sou eu, para onde vou, o que eu quero, como vou, se vou conseguir, mas tudo parece longe demais.


Mas tudo o que? Não faço ideia.


No calar da noite percebi que já não me sinto confortável na minha pele, não mais. Talvez por isso tenho tentado encontrar algo que não sei o que é ou se mesmo existe. Me deixo levar pela correnteza que não me leva a lugar nenhum porque não sei aonde quero chegar.


A sensação é de que coloquei um barco enorme pra navegar. Ele enfrentou a rebentação bravamente, passou a pior parte das ondas, conseguiu chegar em alto mar e navegar por águas calmas mas aí... tinha um banco de areia e meu barco encalhou.


O problema é que estou exausta demais pra conseguir empurrar ele pra fora dali e não sei exatamente como chamar alguém pra ajudar, se é que quero ou preciso de ajuda para isso.


Existe maré alta em alto mar?


Não sei se devo esperar para ver se o nível do mar aumentar e por sorte me empurre para longe dali ou se espero estar descansada para desencalhar o barco aos empurrões. O problema é que não dá pra esperar por muito tempo porque com a maresia e o sol quente, meu barco pode estragar e encontrar ali o seu jazigo. Mais uma morte simbólica que não sei se estou pronta para testemunhar.


A cama insiste em me manter alerta empurrando meus pensamentos num vai e vem nauseante. Me sinto dominada pelo balanço das ondas, completamente entorpecida pelo marasmo de águas agitadas.


Mas ainda assim, não afundo. Sigo observando a direção do vento, olhando as posições das estrelas, buscando prever as tempestades para tentar me proteger das ondas gigantes que são bem capazes de me engolir.





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