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Oco

Arrumou 5 minutos para si. Entre um choro e outro, conseguiu correr para o que era o seu antigo ateliê. Antigo não porque estava velho, mas porque habitar seu lugar preferido no mundo parecia ter sido em outra vida... e talvez fosse.


Sentou na cadeira e olhou para a mesa: branca, vazia, saudosa. Fazia tempo que não criava nada, não sabia nem por onde começar. Logo ela que se dizia tradutora de sentimentos, sentia tanto que não sentia nada.

Se assustou com essa nova sensação. Era como se sua alma tivesse se desconectado do corpo e se transformado em um espelho da sua mesa: branca, vazia, saudosa.


Resolveu começar de qualquer forma, quem sabe o movimento do seu corpo não acordasse sua alma?

Funcionou até certo ponto, criou algo significante para ela, mas ainda assim, a sensação de desconexão persistia. Seu trabalho parecia falar outra língua que soava distante e fria.


Olhou para as peças em cima da mesa, que agora estava suja, ocupada – mas ainda saudosa – e não conseguiu encontrar a si mesmo no que estava sendo dito ali. Uma angústia tomou conta do seu peito, desencadeando uma crise nervosa. Um silvo fino e doloroso machucava seus ouvidos, sua respiração acelerava, o coração a galopes. Se colocou em posição fetal para aguentar tanta dor. Até que de repente um estampido alto e forte se fez e então: silêncio.


Ainda desorientada abriu os olhos apenas para ver outro par olhando diretamente pra ela, a poucos centímetros de distância. Distância essa desconfortável até para os amantes.


Se jogou para trás assustada e confusa, rezou para estar louca. Suas mãos lhe cobriam o rosto para não ter que ver de novo aqueles olhos idênticos aos seus. Não só os olhos, mas o cabelo, o corpo, a voz, a roupa, o rosto: um duplo seu. Um pedaço perdido da sua alma que estava solta do casco, do corpo.


Olhos abertos, pupilas dilatadas, assustada como nunca antes esteve, não conseguiu falar palavra.

Já o duplo, que parecia muito confortável, caminhava pelo ateliê. Olhou para a mesa, viu sua recente criação e perguntou em tom professoral: – O que é isso?

– É ... é um... um trabalho meu. – Respondeu insegura.

– Dá pra ver, né? – disse o duplo em tom crítico. Mas pra que?

– Pra que o que?

– Pra que isso? Esses objetos, essa agulha.. linha. – seguiu falando de forma desdenhosa.

– É uma forma de me expressar...

– Tsc tsc tsc. – o duplo suspirou de forma impaciente e continuou falando em tom de deboche– Vocês se acham muito importantes, né? "Vou falar de mim.. olha como eu sei falar com poesia"...

– Que que você quer? – finalmente tomou coragem para dizer algo.

– Nada. Vim aqui.. ver como andam as coisas.. – falava com falsa despretensão enquanto andava pelo ateliê e gesticulava teatralmente – E o que exatamente você vai fazer com isso?

– Vender... é o que eu faço. Faço arte e as vendo.

– Huh – disse o duplo deixando escapar uma risadinha e aumentando a intensidade do deboche. – E pra quem?

– Pra quem gosta de arte, do que eu faço.. sei lá...

– Ah tá... entendi... Vende! – falou em tom de desafio e seguindo com um discurso raivoso – Isso aqui tá vazio, igual sua mesa tava, igual sua alma tá. Oco, igual seu corpo.


Tentava não sucumbir as investidas cruéis do duplo, mas não pode deixar de pensar se parte do que ele falava não era verdade.


– Não. não tá. – protestou sem muita confiança.

– Então vende! – finalizou com um sorriso aliciador e assustador na mesma medida.


Essa última frase a fez querer correr. O comando abusado rompeu o último fio de segurança que ainda se se agarrava. Enquanto isso, seu duplo permaneceu sentado confortavelmente no sofá enquanto checava as unhas.


Não queria se entregar por completo, não gostava de perder. Colocou seus trabalhos à venda na esperança de que ele estive errado, mas os dias foram passando e não houve nenhum interesse em seu trabalho. Ninguém quis. Ninguém comprou. E o duplo ali, dia após dia, com seu olhar provocador e debochado, como um ditador sádico.


O tempo foi se arrastando pesadamente enquanto sentia sua alma desconectar cada vez mais do seu corpo. Se sentia como um maracujá maduro: uma casca grossa, guardando uma polpa solta e um tanto azeda. E foi enquanto pensava nisso que aconteceu: um barulho alto e forte de algo se rompendo a fez fechar os olhos mais uma vez.


Ao abri-los, com os ouvidos ainda zunindo, viu sua casca, seu corpo. Já não estava dentro dele.


Do outro lado do ateliê estava o duplo: rindo, vitorioso. Andou vagarosamente em sua direção, se aproximou de seu ouvido e sussurrou: eu te avisei! E em meio a uma gargalhada escandalosa, correu e tomou posse do corpo. Aquele duplo, crítico, impiedoso e ardiloso assumiu o comando e a deixou lá: pequena, perdida, desesperançosa; olhando seu corpo ser tomado por um parte sua, mas tão cruel.


Pegou seus trabalhos, os abraçou com toda foça e sentou no canto do ateliê. Chorava enquanto assistia sua vida ser tocada para cantos menos agradáveis do que desejava pra si. Enquanto as lágrimas caiam não notava que seus dedos apertavam demais as molduras dos quadros, fazendo-os sangrar insistentemente. Até hoje, dizem que vive ali sentada no canto, esquecida, amargurada, abraçada com seu passado, se lamentando por ter perdido o controle; completamente oca, exatamente como seu duplo falou.



*Esse é um conto de terror que pode ser baseado em uma história real ou não.

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